A serenidade que constrói



justamente a liberdade democrática. Uma liberdade que ultrapassasse partidos e ideologias, o antídoto contra os fabricantes de mitos, os monopolistas da verdade e aqueles que rompem os códigos sagrados da tolerância em prol de ambições pessoais ou corporativas.

 

O segundo tema é conseqüência do primeiro. Trata-se dos direitos humanos, numa escala universal e como caminho seguro para defender o indivíduo contra o poder do Estado. Por fim, vale lembrar o tema da serenidade, sintetizado num livro recém-editado no Brasil, Elogio da Serenidade, que nada mais é do que aquela virtude essencial à construção da democracia e dos direitos humanos. Estou falando do respeito ao outro. A Ética começa justamente nessa confluência. Pois é a verdade de cada um que promove a evolução do direito, da justiça e, conseqüentemente, da liberdade.

 

Repensando o entendimento
 

Os ensinamentos de Bobbio em muito podem contribuir para que o Brasil encontre novos caminhos neste ano que se inicia cercado de expectativas de crescimento econômico e justiça social. Vivemos um momento singular. Pela primeira vez na nossa história, um partido de esquerda chega ao poder pelo voto, sem o mínimo, por irrisório que seja, arranhão na ordem institucional. E o que é ainda mais positivo: a sociedade se posiciona claramente a favor de reformas que distribuam renda, gerem empregos e criem um ciclo de desenvolvimento sustentado capaz de banir o fantasma da exclusão social.

 

Contudo, os ventos de renovação vieram acompanhados de forte tendência ao conflito compulsivo. Olha-se em volta e facilmente se constata a existência de uma guerra de todos contra todos. O fenômeno transborda do campo econômico e político para o universo das relações pessoais onde é comum a censura acerbada e vazia à idéias que germinariam facilmente se seus interlocutores pensassem na convergência. Bobbio preferiria utilizar a palavra serenidade. Mas, na essência, ambas são muito parecidas porque fluem para um mesmo leito: o avanço da sociedade e do indivíduo é feito de muitas somas. Portanto, de entendimento e diálogo, o que no nosso caso pode ser perfeitamente sinônimo de sólida aliança construtiva de todos aqueles que acreditam em práticas éticas, no âmbito ou não da concorrência.

 

As lições de Bobbio estão ao alcance de todos que desejem assimilá-las e levá-las à prática. A maioria dos seus livros foram traduzidos no Brasil. Neles podem se inspirar tanto os partidos quanto os indivíduos. O essencial é que se desperte para o seu apelo à racionalidade, fazendo do conflito desnecessário e improdutivo ? aquilo que Bobbio denominava como sendo as saídas do labirinto que ?não levam a lugar nenhum? ? um dente inanimado da engrenagem da história. Portanto, descartável e impróprio para a construção de uma nação como a nossa, capaz de desempenhar importante papel no mundo contemporâneo.

 

(*) Presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial - ETCO

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